Fantasmas e Monstros

Arrumei meu quarto, coloquei o pijama e deitei na cama. Os dias estavam sendo normais e monótomos. Havia um vazio aqui dentro de mim que ninguém conseguia preencher - só ele, mas ele estava longe daqui. Ou talvez estivesse mais perto do que eu imaginasse. Sinto tanta falta do Peter. Chega a doer. Não há um dia que eu não pense nele, como também não há uma noite que eu não tenha pesadelos. Tudo mudou depois que eu disse adeus. Mas eu não queria dizer adeus. Me pergunto como ele está agora, se esta bem, onde ele está... lógico que não recebo nenhuma resposta. As vezes pergunto-me, se tudo aquilo foi real, então olho para meu pulso e vejo aquela pulseira e lembro-me de que tudo não foi um sonho de inverno. Lembro-me do que passamos juntos, das risadas, das discussões, de ele sempre me salvar... droga, nem acredito que estou chorando - mais uma vez, pra variar. E como sempre, lá fora começa a chover. De alguma forma eu sei que ele continua me olhando, continua me protegendo, só que não o vejo e talvez nem seja melhor ver. Respiro fundo. O sono me toma, e não consigo lutar contra ele, dizem que depois de chorar temos sono. Hora de brigar com meus fantasmas e montros. Hora de dormir. Boa noite Peter - sussurro e como resposta recebo uma rajada de vento em minha janela.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever.
- Clarice Lispector

Adeus.


Todos se vão um dia. Uns mais cedo, outros mais tarde, e tudo o que fica é a saudade e as lembranças. Dizer adeus não é fácil, mas é preciso. E quando sentir saudades, é só vasculhar em sua mente um pedacinho da pessoa. Um momento com ela. E comigo não vai ser diferente. Jamais irei esquecer do sorriso dele, dos palavrões, dos xingamentos, das piadas e daquele jeito unico e especialmente de ser. Jamais irei esquecer daquele que brigava com sua mulher e que no momento seguinte estava beijando-a. Daquele que se emocionava facilmente e que fez tudo o que queria enquanto podia. Sentirei falta. E aqui, me despeço de José Gama, mais conhecido como vovô, que aos 88 anos foi para uma melhor, deixando filhos, netos, bisnetos, genros, esposa - deixando a familia. Te amo vovô.

Mais de 50 anos ao lado dele. Sabia de todos os seus defeitos, de todas as suas qualidades. Sabia de tudo o que tinha que saber. Sem segredos. Os dois haviam se tornado um há muito tempo. E era assim mesmo que tinha que ser. Mas o tempo passa e a idade também. Os problemas vêm e a saúde piora. Mesmo assim, um nunca abandona o outro. Porque as coisas são assim quando o amor é verdadeiro: Nada os separa. Nem a morte. Por ora os dois estão lá, lado á lado. Como eu queria que fosse pra sempre. Mas não é. Fazer o que. 


Anota num papel e cola na geladeira: Desapegue dos detalhes. Gargalhe. Não se importe. Seja egoísta. Confie em você.
Tati Bernardi     

Trágico

Julie acordou depois de uma tarde chuvosa. Tinha dormido para esquecer as coisas, esquecer seus problemas, seus erros e seus tormentos. Mas como sempre, ao abrir os olhos tudo voltava. Ela sentia falta dele, onde quer que ia, ou olhava via um pedaço dele. Tudo a fazia lembrar dele. Não sabia se o que tinha feito era certo, não sabia se era normal se sentir um caco por dentro, não sabia de nada e nem procurava saber. Parecia um zumbi, definhando cada vez mais com o tempo. Queria ele de volta, anseiava por seus abraços e o gosto da boca dele ainda permanecia em seus lábios. Claro que Julie fizera tudo pensando nele, e se esquecera do que isso iria causar nela. Notou que ele era uma droga para ela. Agora as coisas eram diferentes e ela iria ter de se acostumar. Olhou para o pulso, onde a pulseira brilhava, não percebendo a lágrima cair. Foi até a janela e olhou para além do horizonte. O crepusculo começara agora e o sol não passava de uma forma esférica morrendo no horizonte. Era lindo. Todo dia a mesma coisa. Nascia, movia-se pelo céu, e morria. Uma dádiva da natureza. Julie queria ser assim. Uma dádiva. Sorriu involuntariamente. Sorrir era bom e acalmava o coração. Julie resolveu deitar de novo. Amanhã o sol iria nascer de novo. O céu iria se iluminar. Haveria um novo recomeço. E sempre seria assim, até o fim dos tempos chegar. E Julie? Bem, Julie lá estaria, olhando tudo, como uma boa observadora, como uma boa espectadora, de seu próprio show, esperando essa história, não ter um fim trágico.